Publicado por: Cia Palhaçaria, Risadas e Outras Bestagens | junho 22, 2009

Meirelles brinca de ser invisível na televisão

Em Som & Fúria, que estreia no dia 7, ele privilegiou texto e atores, não a direção

Patrícia Villalba

Depois de usar mão pesada em Ensaio Sobre A Cegueira, seu último longa-metragem, Fernando Meirelles quer que o telespectador se esqueça de que há um diretor por trás das câmeras de Som & Fúria, minissérie que estreia na Globo no dia 7. “Intencionalmente, é uma série simples, sem parafernália, sem câmera girando. Não queríamos desviar o foco, que é o texto inteligente e esses atores, que têm que brilhar. A vaidade do diretor, de criar um plano incrível, fica para o próximo projeto”, explica ele, em entrevista exclusiva ao Estado, no escritório da sua O2 Filmes, que co-produz a minissérie. “Espero, aliás, que o telespectador esqueça que tem diretor.”

Som & Fúria não tem um, mas cinco diretores. Meirelles, que fez adaptação da série original, a canadense Slings & Arrows, divide a direção dos 11 episódios com Toniko Melo, Gisela Barroco, Fabrizia Pinto e Rodrigo Meirelles. E ao ver a escalação do elenco, a gente tem a sensação de que “todo mundo está ali”. No elenco, 120 atores, entre eles Felipe Camargo, em
volta triunfal à TV (como Dante, o protagonista), Andréa Beltrão, Pedro Paulo Rangel, Dan Stulbach, Daniel de Oliveira, Regina Casé e Rodrigo Santoro, que faz uma pequena, mas marcante, participação – apenas 8 cenas.

A minissérie se passa nos bastidores de uma companhia de teatro estatal, à beira da falência entre comédias e tragédias, que ensaia e encena textos de Shakespeare no Teatro Municipal de São Paulo.

Nesta entrevista, Meirelles dá detalhes do projeto, um dos mais esperados do ano na TV. E explica por que ainda faz questão de filmar para a televisão, enquanto produtores internacionais lhe acenam com orçamentos de US$ 25 milhões:

*De onde veio a ideia de adaptar para a TV brasileira um produto da TV canadense?*

O produtor da série canadense (Niv Fichman) é o mesmo de Ensaio Sobre A Cegueira. Quando ele me convidou para dirigir o filme, me mandou alguns DVDs. Vi 18 episódios de Slings And Arrows em três dias. Falei brincando que ele poderia me vender e ele ficou animado. Quando terminamos o Cegueira, ele me vendeu mesmo. Propus para o (diretor) Guel Arraes e a Globo topou. Foi rápido, pum-pum-pum.

*Como foi a adaptação? Você mesmo fez, não?*

Sim. Três tradutores passaram para o português e eu fiz uma adaptação para o Brasil, de diferenças culturais, mesmo. Pus algumas piadas sobre o Sarney, umas coisinhas assim. Inventei também uma companhia de teatro do Estado, coisa que não existe aqui. Em São Paulo, temos temporada de ópera, a orquestra do Estado, coral e balé da cidade de São Paulo, mas não temos uma companhia de teatro. Na série, criamos uma companhia clássica, que ensaia e se apresenta no Teatro Municipal.

*Como foi a experiência de dividir a direção com outros quatro diretores? E
como fica a unidade no resultado final? É possível perceber o que cada um
dirigiu?*

Gosto muito de rachar direção. A unidade não fica comprometida, porque é sempre o mesmo elenco, os mesmos fotógrafos, os mesmos cenários. E a gente conversou antes. A série, como linguagem, é bem clássica, não tem nada de inovador. É o oposto de Capitu, por exemplo, porque a gente sabe que a graça e o interesse dessa série é o texto, que é muito bom, e a interpretação. A
vaidade do diretor, de criar um plano incrível, fica para o próximo projeto (risos).

*Curioso, porque é o que você dirigiu logo depois de Cegueira, que é um show de imagens.*

Ali sim você vê a mão pesada do diretor. Aqui, você vai ver, não tem nada. Espero que o espectador esqueça que tem diretor.

*O Felipe Camargo, que não apareceu muito na TV nos últimos tempos, é protagonista da série. Entre tantos nomes, do elenco, como foi a escolha dele para o papel de Dante? *

Eu tinha esquecido um pouco do Felipe e fiquei encantado quando o vi em Filhos do Carnaval, que a gente fez aqui na O2 (co-produção com a HBO). Foi o Cao Hamburger que o trouxe de volta. Achei que ele tem um grande carisma e fiquei me perguntando por que ele não trabalhava mais. Agora, então, nem teve uma coisa de “chamamos o Felipe ou chamamos o Tony Ramos” – era o Felipe e ponto final. Encasquetei. Ele tem humor, é engraçado, dramático, tudo. As pessoas vão adorar. E acho que ele volta por cima.

*A O2 co-produz com a Globo há seis anos, desde a série Cidade dos Homens.Como avalia o mercado para esse modelo de produção?*

É um mercado que só está crescendo. Se você pegar os canais a cabo, tem muita coisa no GNT, no Canal Futura.

*Na TV aberta, menos. *

Estive na Globo para apresentar um projeto para o ano que vem, e senti que eles estão bem receptivos, mais do que nunca. Ele sempre foram abertos, mas agora estão com uma voracidade enorme por produções independentes. O Jorge Furtado está fazendo o Decamerão, a Pindorama, da Regina Casé, faz as coisas dela. Acho que a Globo tem dois anos muito interessantes pela frente. O (diretor artístico) Manoel Martins está bem animado.

*Foi conversar com a Globo sobre qual projeto? A minissérie sobre o Jean Charles? *

Não. É um projeto para ser filmado fora do Brasil. É segredo ainda, mas não tem a ver com o Jean Charles. Estou participando de vários projetos como produtor – lendo roteiros, ajudando a montar elencos e etc. Como diretor, estou trabalhando num roteiro do Jorge Furtado para ser rodado no ano que vem. Desta vez uma co-produção Brasil, Estados Unidos, Canadá e Japão.

*A O2 se voltou a Shakespeare enquanto a Casa de Cinema de Porto Alegre, do Jorge Furtado, acaba de rodar a série Decamerão, uma adaptação de Boccaccio. Essa volta aos clássicos, a uma dramaturgia pura, digamos assim, poderia ser encarada como uma resposta aos realities shows, que dominaram a programação da TV?*

Na verdade estes projetos estão ligados, pois resolvi fazer a série, que tem peças de Shakespeare como centro da história, depois de ler o romance Trabalhos de Amor Perdido, do Jorge Furtado, que fala justamente sobre Shakespeare. Outra coincidência é que, como todo mundo sabe, Shakespeare inventava poucas histórias – ele quase sempre copiava outros autores e fazia uma espécie de “remake” das histórias. O Decamerão é fonte onde ele bebia constantemente. Nunca havia pensado nestes projetos como contraposição aos realities, mas de fato são. Talvez por causa da quantidade de informação disponível hoje em dia sinto que a realidade tem nos invadido como nunca antes na história deste planeta. Um pouco de invenção e de poesia para temperar estes tempos tão duros não cai nada mal.

*Como é voltar a fazer TV, aberta, depois de fazer um filme de US$ 25 milhões, no esquemão de Hollywood?*

Se eu pudesse sempre filmar no Brasil, nunca filmaria em outro lugar, porque é muito mais gostoso trabalhar com atores brasileiros, na língua que domino totalmente. Mas quando você tem uma ideia cara, não adianta filmar em português, porque filme em português não pode custar mais de US$ 6 milhões, senão não se paga. Então, se tenho uma ideia de filmar no meio da África, o filme tem de ser em inglês. Infelizmente, andei tendo umas ideias caras (risos)… Em inglês você consegue distribuição no mundo inteiro. Em português, não. Agora, penso assim: quando quiser fazer algo em português, vou fazer na televisão. Assim, todo mundo assiste. E quando for fazer cinema, vai ser em inglês, porque distribuo no mundo inteiro. Por enquanto, vai ser essa a minha maneira de tocar a carreira.

Postado por:
Ruy Jobim Neto
Cia. Mestremundo de Histórias


Responses

  1. hahahaha engraçado o comentário dele no final, sobre as línguas em que filma.
    Dá-lhe Fabinho e Ruy!


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