Publicado por: Cia Palhaçaria, Risadas e Outras Bestagens | julho 18, 2009

Barbara Heliodora: Peça 'As ridículas de Molière' não apresenta nenhum aspecto positivo

RIO – Sou e sempre fui contra a censura, porém creio que deveria existir uma lei que impedisse o uso indevido e abusivo de nomes de autores famosos e mortos, impossibilitados, portanto, de se defender contra incidentes infelizes e desastrados como, por exemplo, o lastimável espetáculo em cartaz no Sesc Copacabana intitulado “As ridículas de Molière”.

Seus lastimáveis realizadores podem argumentar que, no caso, o nome de Molière é apenas parte do título, mas, como Molière escreveu “As preciosas ridículas”, o nome de um dos maiores autores de todo o teatro ocidental e o título de uma de suas obras são usados, na verdade, para atrair incautos.

Ideias de Molière são roubadas e destruídas

O texto desse desastre, que ocupa um ótimo e prestigioso palco da cidade, é um amontoado de asneiras e grossuras que, impossível negá-lo, muito remotamente exploram como desculpa para seus desmandos o germe da ideia da exemplar comédia de Molière, porém destruindo tudo o que de lá foi roubado, rebaixando tudo ao mais primário nível de indigência intelectual.

A encenação consegue, em tudo e por tudo, agravar todos os defeitos da “adaptação e dramaturgia” pelas quais tenho o doloroso dever de responsabilizar Miriam Vilma, Gabriel F., Roberta Rangel e Vanderson Maciel.

Nenhum desses tem a menor ideia do que seja uma comédia (ou sequer uma chanchada) e, como todos fazem parte do elenco (e a primeira, também da direção), nenhum deles fica isento de culpa pela inanidade ou má qualidade de tudo o que é apresentado. Tudo começa com uma lamentável introdução, que apresenta um suposto enterro de Molière, acompanhado por informações primárias a seu respeito em simultâneo com um gratuito teatrinho de sombras.

É difícil dizer o que é pior no espetáculo, se o texto, ofensivo de tão destituído de qualquer sentido ou qualidade, ou os guinchos e pulos que constituem a maior parte do que deveria ser a interpretação.

Todo o numeroso elenco é igualmente ruim, com todo o conjunto feminino usando sempre um detestável registro agudo e saltitando, enquanto o masculino acredita que nada pode ser tão encantador e divertido quanto a mais surrada caricatura de homossexual, seja em trejeitos, seja em modo de falar.

Não é possível perceber onde as e os realizadores de “As ridículas de Molière” podem estar querendo chegar com sua lastimável apresentação, ou sequer acreditar que eles possam ter tido qualquer objetivo em vista.

Nem o público e nem, muito menos, Molière merecem ser sujeitados a acontecimento tão desastrado, infeliz e gratuito.

O uso do nome de Molière em espetáculo tão destituído de qualquer aspecto positivo ainda traz em seu bojo o perigo de fazer aqueles que nunca antes conheceram sua obra pensarem que era esse o tipo de coisa que ele escrevia e fiquem por isso mesmo sem compreender por que tanta gente diz que ele foi um grande autor.


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